Blade Runner 2049 (2017)

Ação, Aventura, Ficção Científica |
Avaliação:
8/10
8

Informações do filme

História do filme

Trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, a humanidade está novamente ameaçada, e dessa vez o perigo pode ser ainda maior. Isso porque o novato oficial K (Ryan Gosling), desenterrou um terrível segredo que tem o potencial de mergulhar a sociedade no completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma busca frenética por Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há 30 anos.

Crítica

O cult Blade Runner: o Caçador de Androides (1982) apresentou um universo em que uma sociedade decadente utilizava humanoides como escravos para realizar trabalhos em outros planetas. Esses cativos eram chamados de replicantes, devido sua semelhança com figuras humanas. Implantes de memórias faziam com que eles fossem capazes de simular sentimentos, o que acabou gerando uma revolta por parte daqueles que passaram a reivindicar sua humanidade. No final do filme, o androide Roy salva o seu perseguidor, confirmando que ele possuía pensamento próprio, afetividade e sensibilidade. Roy adquiriu sua alma, qualidade singular dos humanos. Trinta e cinco anos depois, Blade Runner 2049 retoma a discussão se é possível uma vida artificial ser provida de humanidade. O excesso de remakes e continuações de antigos sucessos desgastou a imagem desse tipo de trabalho e ainda gera muita desconfiança em torno dessas produções, principalmente quando há mudança de direção. Porém, apesar de não ser um filme necessário, é uma ótima viagem para que sente saudade deste universo.

O filme se passa trinta anos após os acontecimentos de seu antecessor. O espaço deixado pela falida Tyrell Corporation é ocupado pela Wallace Corporation, que promete fornecer “anjos a serviço da humanidade”. O policial “K” (Ryan Gosling) é um caçador de “anjos” caídos, replicantes fugitivos em busca de viver como humanos. Após uma missão bem sucedida, “K” encontra os ossos de uma replicante que aparentemente foi capaz de conceber. Durante sua investigação, “K” descobre evidências que relacionam este fato às suas lembranças que ele julgava serem implantadas.

O diretor Denis Villeneuve (A Chegada, 2016) propõe manter a discussão homem versus máquina, mas muda a perspectiva do homem (Deckard) para um androide (“K”). O replicante “K” vive como humano, tem uma casa, uma esposa chamada Joi (Ana de Armas), leva presentes para ela e sente-se apaixonado, mas ainda falta algo. Joi é fundamental para entender “K”. Ela é um produto de inteligência artificial que aprende convivendo com seu dono e se molda conforme os gostos dele. Isso significa que os comportamentos dela refletem a imagem de seu proprietário. A descoberta do nascimento de uma criança por meio de uma replicante é o gatilho para “K” descobrir que o que falta nele é humanidade, então ele começa a questionar sua natureza. Durante uma leitura de uma sequência genética, Joi ironiza, argumentando que uma pessoa normal possui quatro letras (nucleotídeos) para representar sua essência enquanto seres de inteligência artificial são incompletos por possuírem somente a metade (bits representados por 1 e 0). Em meio às dúvidas, e com muitos desejos, Joi chega a batizar “K” com o nome Joe, já que ela é programada para agradar as necessidades dele.

O nome Joe é muito significativo neste contexto. Diminutivo de Joseph, em português José, este é o nome do personagem filho de Raquel na Bíblia. Por meio de Raquel, uma mulher estéril, Deus prometeu um filho que seria responsável por grandes mudanças no Egito. Tyrell é a figura do criador em Blade Runner: o Caçador de Androides e Rachel (Raquel no português) foi a replicante criada por ele. Nesta continuação da história descobrimos que Tyrell deu o dom da fertilidade à Rachel (um androide que deveria ser infértil), assim como Deus tornou Raquel fecunda na Bíblia. Enquanto “K” junta os pontos de sua existência ao filho de Rachel, ele passa a se sentir como a figura que irá mudar a existência dos replicantes. Para “K”, a humanidade, além da alma, está associada ao fato de nascer via um parto, tanto que ao desconfiar que ele foi concebido por esse meio, se alegra sentindo-se humano (essa ideia é bem representada enquanto ele sente a neve caindo em sua mão). Villeneuve corre um risco muito grande ao abordar à humanização por meio desse ponto de vista mais simplificado. Seria o dom da vida o fator que define a humanidade de alguém?

Além das referências cristãs, outros elementos do filme somam para o entendimento da mensagem, como quando “K” encontra um broto de flor ao lado de uma árvore sem vida, fazendo referência a uma criança gerada a partir de um replicante. O filme também conta com a participação especial de Gaff (Edward James Olmos), o homem dos origamis, que ao fazer a figura de um carneiro, insinua o deus Amón da mitologia egípcia, regulador da fecundidade.

A direção de fotografia também trabalha a favor do tema discutido. A vista panorâmica de Los Angles é composta por imensos quarteirões com ruas muito estreitas, tudo padronizado, como se todos ali embaixo fossem moldados para serem iguais. A cidade de Miami se tornou um grande campo de coletores de energia para agricultura sintética, uma imensidão sem cor, sem vida.

A direção de arte também exerce sua influência, porém mais voltada para os sentimentos dos personagens, principalmente por meio das cores. Tons de azul predominam, retratando a frieza nas relações entre os habitantes da cidade de Los Angles. O campo sem vida de Miami é representado pelo branco, ausência de cores. A casa de “K” possui tonalidades verdes, pois ali representa lugar de conforto, segurança. O esconderijo de Deckard está em ruinas, em tons de ferrugem, representado o desgaste da vida do antigo protagonista.

Blade Runner 2049 é uma revisita ao universo criado pelo seu antecessor. Ele consegue inovar, respeitando elementos importantes do primeiro filme, como estética e trilha sonora. Os usos das cores e das fotografias continuam impecáveis. A obra de Ridley Scott era uma ficção científica tão reflexiva chegava a ser poética. O novo filme está mais para uma homenagem, como se faltasse vida própria. É bom, mas assim como seus replicantes, falta algo. Seria a alma?

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Trailer: Blade Runner 2049

Ação, Aventura, Ficção Científica

Avaliações ( 1 )

  • Henrique Nunes 08 / 10 / 2017 Resposta

    Blade Runner 2049 é uma revisita ao universo criado pelo seu antecessor. Ele consegue inovar, respeitando elementos importantes do primeiro filme, como estética e trilha sonora. Os usos das cores e das fotografias continuam impecáveis. A obra de Ridley Scott era uma ficção científica tão reflexiva chegava a ser poética. O novo filme está mais para uma homenagem, como se faltasse vida própria. É bom, mas assim como seus replicantes, falta algo. Seria a alma?

    7 / 10

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